domingo, 14 de agosto de 2016

Ainda me lembro, PAI.


 

(Raquel Pereira)

Era mês de julho. A televisão não dava trégua. O comercial frenético, disparava: “PAI, NÃO ESQUEÇA DA MINHA CALOI”. Quem está na casa dos trinta, sabe exatamente do que estou falando.

 Eu, uma criança como qualquer outra, louca para ganhar a bendita! Seria a minha primeira bicicleta e, é lógico, a ansiedade tomava conta de todo o meu corpo.

Na época, eu estava com cinco anos, pronta para chegada dos seis - esse rito de passagem que transformaria não só a minha idade, mas também os meus dias. Aproveitei, então, que era o mês do meu aniversário, e fiz o tão aguardado pedido: CALOI.

            A pior loucura do meu pai foi prometer. Quem me conhece sabe que não sou criatura fácil. Quando encasqueto com alguma coisa, não há santo que resolva.

Finalmente chegou o grande dia - MEU ANIVERSÁRIO – que, por grande coincidência, era dia dele também. Fui até a porta, ansiosa, esperando que chegasse do trabalho. Mal colocou o pé no quintal, corri em sua direção; a ansiedade tomava-me por inteira.  Disparei, então, aquela afobação que me consumira o dia todo:

- PAI, CADÊ A MINHA BICICLETA?

Com um sorriso muito sem graça, disse-me que tinha comprado, mas que estava na loja e que só não havia trazido porque saíra muito tarde do trabalho. Fiquei muito triste e voltei para sala. A cena se repetiu inúmeras vezes.

Os dias foram passando. O mês já havia virado. Todos os dias eu ia recebê-lo na porta; a cada hora arranjava uma desculpa diferente.

Até que, em certa noite, cansada das desculpas, já descrente de que ele realmente traria a bicicleta; não fui à porta. Ansiosamente, ele dizia:

– Filha, não vai dar um abraço no pai? Não vai perguntar da bicicleta?

Respondi que não, que sabia que não tinha trazido.

Minha mãe, vendo minha resistência, tentava me animar, incentivando-me a ir até a porta. Porém, eu havia desistido; não acreditava mais no que papai dizia.

A muito custo, levaram-me até ele. Para minha surpresa, lá estava minha tão sonhada bicicleta. Meu sonho materializado diante de mim. Ao vê-la, a alegria tomou conta do meu peito. Finalmente, a palavra dele tinha se cumprido.

Guardo esse pequeno momento com carinho, como uma lembrança linda. Hoje consigo colocar-me em seu lugar; imaginar o aperto em seu coração cada vez que precisou inventar uma desculpa, a cada olhar triste meu. Sentimentos que, naquele momento, nunca deixou transparecer.

Aquela BICICLETA custou muito trabalho. Custou um dinheiro que não sobrava e que não nos permitia luxos, mas que, no coração dele, valia todo sacrifício.

Não foi a Caloi da televisão, mas foi a que o teu coração conseguiu, PAI.


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